04.11.2009

Mercado de caminhão reaquece e entrega já leva três meses

O mercado de caminhões recuperou o fôlego de um ano atrás, véspera da crise de crédito. A volta da demanda se sustenta na recuperação da economia aliada aos programas de incentivo do governo.

A indústria começou a sentir aumento de vendas em setembro e já refez previsões para o ano. Segundo o presidente da Volvo, fabricante de pesados, Tommy Svensson, nos últimos dias, o prazo de entrega de veículos da marca aumentou de um para três meses.

É bem provável que hoje, na abertura da Fenatran, uma feira de transportes, em São Paulo, os fabricantes de caminhões vão reivindicar ao governo federal a manutenção dos incentivos, apontados por eles como principal razão do reaquecimento do mercado.

Em meados de julho, o governo reduziu a taxa de juros do Finame, do BNDES, a linha de crédito mais utilizada pelas transportadoras. Antes do incentivo, quem comprava um caminhão pelo Finame pagava 10% ao ano mais TJLP. A nova linha ficou em 7% fixo, o que representa, segundo os fabricantes, um desconto de 9%. Além disso, a exemplo dos automóveis, os caminhões também foram contemplados pela redução de IPI, que baixou de 5% para zero, desde o início do ano. Com a soma dos dois benefícios, comprar um caminhão está hoje 14% mais barato do que um ano atrás. Tanto a linha especial do Finame como a isenção do IPI fazem parte de um programa do governo federal que deverá terminar no fim de dezembro.

A Iveco, fabricante de veículos de carga do grupo Fiat, já registrou alta de 15% nas vendas deste semestre comparado com o período janeiro a julho. "A redução dos juros do Finame veio junto com o aquecimento de mercado e com um melhor humor do cliente, que levou um susto no fim do ano passado, mas percebeu depois que a situação não era tão grave", diz o vice-presidente, Antonio Dadalti.

O executivo percebe que "cada mês que passa tem sido melhor que o anterior". Isso leva a indústria a prever que 2009 deverá ser o segundo melhor ano do setor, com a venda em torno de 105 mil veículos de carga com capacidade acima de 3,5 toneladas. O recorde, no ano passado, foi 125 mil unidades. Há alguns meses, os executivos do setor duvidavam que o mercado chegasse a 100 mil este ano.

O ritmo da demanda parece tão seguro que os executivos já prevêem índices de crescimento entre 5% e 10% em 2010. Não sabem, no entanto, calcular o impacto do fim da linha de financiamento Finame com taxas especiais mais a volta do IPI.

Todos os representantes do setor reconhecem, porém que o aumento das vendas vem muito mais do aquecimento econômico do que dos incentivos. Ao contrário do automóvel, lembra Dadalto, "o frotista não compra um caminhão novo só porque o IPI caiu se ele não tiver perspectiva de novos negócios". Os sinais de demanda mais forte vêm das empresas que transportam bens duráveis e também da agricultura.

O aumento das vendas começou a ser sentido em setembro, quando o volume de licenciamento de caminhões no Brasil subiu 18,2% na comparação com agosto. Esse aquecimento ainda está no começo, já que no acumulado de janeiro a setembro ainda há queda de 19,6%.

O gerente de vendas da Volvo, Bernardo Fedalto, diz que a indústria vive hoje um quadro totalmente oposto ao de 2008. No ano passado, o mercado estava aquecido no primeiro semestre, mas sofreu com a crise de crédito na segunda metade do ano. Em 2009, o setor saiu de um primeiro semestre fraco e começa agora a ter de produzir na capacidade máxima.

A Volvo chegou a dispensar 500 trabalhadores temporários no início do ano por conta da crise. Mas a indefinição a respeito do que acontecerá depois do fim dos incentivos do governo deixam o setor em dúvida.

"Nossos clientes não têm fôlego financeiro suficiente para mudanças tão rápidas", diz Svensson, da Volvo. O executivo aponta também a recuperação das economias nos países vizinhos, como Argentina e Chile. A Volvo continua exportando para mercados da América Latina, mas perdeu todos os contratos para EUA, Europa e Oriente Médio. Com isso, as suas exportações caíram quase 70%.

É por isso que, mais dependentes do mercado interno, as montadoras querem, agora, que o governo federal mantenha os incentivos. Soma-se a isso, a retração dos mercados da Europa, origem de todos os fabricantes de caminhões que têm operações industriais no Brasil. Na sexta-feira, ao anunciar um prejuízo de US$ 484 milhões no terceiro trimestre, a direção mundial da Volvo previu uma lenta recuperação dos mercados mundiais, mas destacou o crescimento na Ásia e América Latina.

Fonte: Valor Econômico - SP

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